24.8.10

Querida inocência

Por momentos tenho sede de voltar.  A inocência enchia-me a alma.  Era simples. Era fácil. Pegavas-me a mão e caminhávamos. Juntos pela estrada feita de pedra, levas-me a conhecer novos lugares. Eram sítios lindos. O ar era puro, tal como tu. Nunca foste um homem de demonstrar os teus sentimentos pelos outros, o que tu não sabias é que os teus olhos reflectiam toda a alegria, amor e ternura que vivíamos naquele tempo. Aos fins-de-semana, íamos assistir aos campeonatos de saltos a cavalo que tu tanto gostavas. - Talvez tenha herdado de ti, essa grande paixão pelo mundo equestre. - Sentavas-me ao teu colo e falavas para mim numa linguagem estranha que eu não entendia. Vivias aqueles momentos como quem vive um jogo de futebol. Deixavas-te levar e no primeiro instante o entusiasmo tomava conta de ti. Voltávamos para casa entre gargalhadas e cúmplices sorrisos. Fazíamos corridas, às quais acabava sempre por ganhar-te porque dizias sempre que já estavas um pouco cansado para brincadeiras de criança. Criança era algo que não eras, não fisicamente. Saboreávamos um fantástico chá acompanhado de pão caseiro alentejano barrado em manteiga barata. Eram sem duvida os mais saborosos lanches. Depois, corríamos para a ponte e ao som do rio, contavas-me histórias. Histórias da tua vida. De tempos que não eram os meus. As histórias, essas, terminavam sempre da mesma maneira. Tiravas o teu baralho de cartas do bolso e jogámos a um jogo que eu não compreendia. Parecia-me complicado e por isso mesmo era difícil fintar-te. Outras vezes, brincávamos ao "esconde-esconde". Era como se tivéssemos a mesma idade. Brincar contigo era muito mais divertido do que com uma menina pequena como eu. Conseguia ver mais alegria em ti do que em qualquer outra pessoa. Davas cor a todos os momentos. Pintavas sorrisos. Espalhavas magia. Querida inocência, onde estás? 
Um dia, compro-lhe um telemóvel e ligo-lhe para lhe dizer o quanto gosto de si.



1 comentário:

  1. está fabuloso! adorei mesmo, minha Patrícia :) lindo mas lindo mesmo! escreves com a alma e isso basta. quero mais destes assim, que me comovam :D

    ResponderEliminar