Tocaram à campainha. Calcei as pantufas e fui ver quem era. Era ela mais uma vez, mais um dia. Entrou mais uma vez sem pedir licença e ficou comigo. Ficámos a observar o segundos, os minutos, as horas que teimavam em passar. O relógio não parava. Continuava imóvel no vazio da casa. O som dos pássaros parecia distante. Estava desligada de tudo e todos. Triste monotonia que me consomes. Não consigo largar-te, não entendo porquê. Quero sair daqui, quero fugir. Viver, deixa-me apenas viver. Tira-me daqui. Liberta-me. Estou cansada de férias, destes dias cinzentos e sem cor. Estou cansada de ouvir sempre as mesmas histórias, ver sempre as mesmas pessoas. Os sorrisos perderam a cor. Esses, há muito que já nada me dizem, porque se tornaram banais. Os abraços tornaram-se escassos e frios. Falta-me algo. Preciso de sair daqui o quanto antes. Quero e preciso fugir da rotina. Quero ser, aprender, crescer e viver. Quero pintar os meus dias com todas as cores do arco-íris. Quero sair de mochila às costas e deixar um post-it no frigorifico "Mãe, volto um dia destes.". Quero conhecer novas pessoas, novos lugares. Quero voar. Ou simplesmente, deixar-me levar. Preciso dar vida a estes dias estonteantemente repletos de nada e de coisa nenhuma. Afastar-me de ti por uns tempos. E depois sentir saudades tuas, para então voltar. Mas por agora, vou continuar aqui.
Triste monotonia, lamento, mas não te consigo largar. 
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